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Créditos de carbono: a “solução” que não muda nada

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Créditos de carbono: a “solução” que não muda nada

Créditos de carbono viraram uma das principais respostas ao problema climático. Eles aparecem em planos corporativos, políticas públicas e promessas de neutralidade de emissões, e a lógica é bem simples: quem emite carbono pode compensar comprando reduções em outro lugar.

O problema começa quando essa compensação substitui a redução real, e em muitos casos as emissões continuam acontecendo. O que realmente muda é a forma como elas são registradas.

Na prática, uma tonelada de CO₂ emitida por uma indústria passa a ser tratada como equivalente a uma tonelada “evitada” ou “removida” em outro território, muitas vezes por projetos florestais. Essa equivalência ignora diferenças importantes entre tipos de carbono, tempo e riscos reais de reversão.

O resultado é um sistema que permite manter processos produtivos intactos, enquanto a solução climática fica restrita a documentos, certificados e metas futuras. A atmosfera continua recebendo carbono, mas a conta fecha no papel.

No Brasil, esse debate é ainda mais sensível, florestas, terras e territórios entram nessa lógica como ativos de compensação, enquanto setores altamente emissores ganham mais tempo para adiar mudanças estruturais.

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Notícia

Olimpíadas de Inverno 2026 aceleram agenda de sustentabilidade em Milão e Cortina

As Olimpíadas de Inverno de 2026 realizadas em Milão e Cortina d’Ampezzo estão sendo utilizadas como uma ferramenta de transformação urbana. Diferente de outras edições dos jogos, o foco não se deu em novas obras monumentais e/ou temporárias, mas no reaproveitamento de áreas já existentes e na criação de infraestruturas para uso permanente.

Em Milão, o antigo pátio ferroviário de Porta Romana foi convertido na Vila Olímpica, e após os jogos, o complexo será transformado na maior residência estudantil da Itália, com 1.700 leitos, parte deles com aluguel abaixo do valor de mercado. O projeto foi desenhado desde o início para uso pós-olímpico, evitando estruturas temporárias e desperdício de materiais.

Outro exemplo é a Arena Santa Giulia, construída para as competições de hóquei, ela integra um plano ainda maior de regeneração urbana. Localizada junto a um polo de transporte público, a arena foi pensada como equipamento permanente para esportes e eventos culturais, reduzindo o risco de subutilização após os Jogos.

  • Na agenda ambiental, 92% das instalações esportivas já existiam ou são temporárias.

Os novos edifícios operam com energia renovável, sistemas de eficiência hídrica e metas de reciclagem de resíduos. Já a mobilidade foi pensada para priorizar o transporte público (metrô e trens), com a Linha M4 ligando o aeroporto ao centro em horários estendidos durante a duração do evento.

O legado verde das cidades italianas é reforçado pelo projeto Forestami, que prevê o plantio de 3 milhões de árvores até 2030 para combater ilhas de calor e poluição atmosférica. Parte dessa meta foi acelerada para atender ás demandas dos Jogos.

Além dos ganhos urbanos, o modelo adotado por Milão-Cortina 2026 também se apoia na descentralização territorial, onde as competições foram distribuídas por cidades alpinas como Bormio, Livigno e Val Di Fiemme, que utilizam hotéis e instalações existentes para alojar atletas. Essa estratégia evita novas construções permanentes em áreas sensíveis, além de direcionar investimentos para regiões que enfrentam despovoamento e dependem do turismo de inverno.

No campo da mobilidade, o legado vai além do período olímpico. Por meio da ampliação do transporte público, o aumento da oferta noturna de metrô e ônibus e a aceleração de projetos de ciclovias integram metas climáticas já previstas no planejamento urbano da cidade. A expectativa é reduzir de forma estrutural o uso do automóvel, e não apenas atender à demanda temporária do evento.

Apesar dos avanços mencionados, o processo enfrenta críticas. Projetos como a Arena Santa Giulia implicaram na perda de áreas de vegetação espontânea, além da valorização imobiliária em zonas regeneradas que levantam alertas sobre gentrificação. O desafio para o pós-2026 será garantir que os benefícios ambientais e urbanos não aprofundem desigualdades sociais, consolidando um legado que seja sustentável tanto do ponto de vista econômico quanto do social.

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