Notícia

No mês de abril deste ano, o Ministério da Fazenda realizou o evento “Implementando a Taxonomia Sustentável Brasileira”, marcando a conclusão da primeira edição da TSB e o início de sua fase de implementação.

O sistema foi instituído pelo Decreto 12.705, de outubro de 2025, como parte do Plano de Transformação Ecológica do governo federal.

A TSB classifica quais atividades econômicas e investimentos podem ser considerados sustentáveis para fins de financiamento público e privado no Brasil. A construção civil foi incluída como setor prioritário.

O Banco Central anunciou que, ao longo de 2026, vai avaliar como integrar a TSB ao seu arcabouço regulatório. Quando isso acontecer, os critérios de elegibilidade para crédito verde no setor imobiliário serão diretamente afetados.

O que isso significa

A TSB não é uma política ambiental, mas uma ferramenta financeira. Essa distinção muda o que está em jogo.

O que o sistema faz, na prática, é definir quais projetos e atividades têm acesso a linhas de crédito rotuladas como verdes: Fundo Clima, Eco Invest, debêntures de infraestrutura. Quem não se enquadra nos critérios não fica necessariamente sem crédito, mas não acessa essas linhas, que tendem a ter condições melhores.

Com o Banco Central avaliando a integração da TSB às suas normas, esse filtro vai se tornar mais presente nas decisões de financiamento do setor.

O problema central do critério é ser comprovado, pois a TSB opera com um sistema de Monitoramento, Relato e Verificação, o MRV, que requer que as organizações demonstrem, com informações estruturadas, que suas atividades atendem ao que o sistema estabelece

Inventário de emissões, análise de ciclo de vida, declaração ambiental de produto: não são documentos que se produzem na véspera de uma linha de crédito. São dados que se constroem ao longo do tempo.

Para construtoras e incorporadoras, a Onda 1 do MRV começa pelas companhias abertas, já as fechadas entram em fase posterior. Mas o dado que o sistema vai exigir “amanhã” precisa começar a ser construído “hoje”.

Certificações como EDGE e LEED, quando acompanhadas de documentação técnica consistente, já funcionam como instrumentos de comprovação compatíveis com a lógica da TSB

Para fabricantes de materiais, o ponto é diferente, a TSB classifica atividades por setor econômico. Isso significa que os critérios que definem um produto como sustentável para especificação em projetos elegíveis a crédito verde estão sendo escritos agora, dentro dos grupos técnicos do sistema.

Quem já tem ACV, EPD e inventário GHG estruturados fala a língua do sistema, enquanto quem não tem, depende de uma corrida contra o tempo onde as horas já estão correndo.

A régua acaba de ser oficializada, e o mercado que não possui dados para atendê-la irá começar a sentir, não quando a obrigação chegar, mas na primeira vez que um projeto precisar de uma linha de crédito que exija comprovação.

Green Building Day XP

O Green Building Day XP é em 4 dias

Quatro dias para estar junto ao Filipe Boni, Sami Meira e profissionais que estão tentando fazer o mesmo que você: trabalhar com mais critério, mais clareza e mais sustentabilidade aplicada de verdade.

  • 📅 15 de maio

  • 🕐 13h às 18h

  • 📍FIEP Event Center

  • 👥 100% presencial, sem transmissão online

  • 📜 Certificado de participação incluso

Serão dois blocos de conteúdos com um coffee break durante o intervalo, além do próprio networking entre todos presentes!

Bônus: 3 meses de acesso ao UGREEN Pass (sem custo adicional) com mais de 30 cursos, a partir do dia do evento.

Vagas limitadas!

Dúvidas sobre o evento?! Fale com nossa equipe pelo WhatsApp: (41) 98896-6656

Desempenho e ciclo de vida

Materialidade circular na construção: madeira engenheirada e concreto autocurativo

A construção civil é, tecnicamente, uma indústria de transformação. Pega recurso natural, converte em edificação e descarta o que sobra.

O problema não é a sequência, mas sim o que ocorre após, quando a edificação chega ao fim da vida útil: quase nada volta ao ciclo.

Segundo a Ellen MacArthur Foundation, entre 20 e 30% dos resíduos gerados por obras são reciclados. O que vem de demolições é ainda pior: apenas 1% dos materiais é reutilizado.

Esse é o modelo linear: extrair, usar e descartar. Seu custo já aparece nas contas: o cimento sozinho responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂ - isso não é um dado novo - é algo que o setor conhece e, na maior parte das vezes, ainda não sabe como endereçar dentro do projeto.

A chamada materialidade circular é uma escolha de especificação com implicações diretas em custo de manutenção, pegada de carbono e tempo de vida da estrutura. Dois materiais ilustram bem o que esse conceito significa na prática.

Madeira engenheirada: carbono que fica dentro da estrutura

Esse material, especialmente o CLT (madeira laminada cruzada), não é algo novo tanto no mercado europeu quanto no norte-americano, porém no Brasil, ainda “está chegando”.

O mercado global de CLT foi estimado em USD 1,84 bilhão em 2025 e deve crescer a uma taxa de 15,15% ao ano até 2033. Esse dado mostra como é o segmento de maior expansão dentro da construção em madeira.

A madeira engenheirada pode substituir concreto e aço em lages, vigas, pilares e paredes em edifícios de até 40 andares. Revisões sistemáticas de ACV (Avaliação do Ciclo de Vida) indicam que a substituição de estruturas de concreto armado por mass timber reduz, em média, 40% a 43% das emissões de gases de efeito estufa. Em comparação com o aço, a redução pode chegar até 50%.

A razão técnica é o fato de a madeira ser composta por cerca de 50% de carbono em peso, e quando ela vira uma estrutura, esse carbono fica imobilizado pelo tempo de vida do edifício. Já o concreto e o aço não fazem isso, eles só emitem na produção.

No Brasil, o primeiro prédio residencial de madeira engenheirada está sendo erguido na Vila Madalena em São Paulo. São 6 andares, com unidades a partir de R$ 5 milhões. A entrada pelo alto padrão é uma estratégia de mercado conhecida, pois serve para criar cultura antes de escalar

O Grupo Tenda já investiu R$ 75 milhões em uma fábrica com capacidade para abastecer 10 mil casas por ano em Santa Bárbara do Oeste (SP). Esses dois movimentos apontam para direções diferentes do mercado, mas validam o mesmo material.

Um ponto que exige atenção na especificação: madeira só funciona como argumento de sustentabilidade quando há rastreabilidade de origem. Produtos com selos FSC ou PEFC deixaram de ser diferenciais e viraram requisito em contratos públicos e obras que buscam certificações como EDGE e LEED. Sem origem comprovada, o argumento não se sustenta.

Concreto autocurativo: vida útil como estratégia

O segundo material opera numa lógica diferente: em vez de substituir o concreto, aprimora o que ele pode fazer.

O bioconcreto foi desenvolvido pelo microbiologista holandês Henk Jonkers, na Universidade de Tecnologia de Delft. O princípio é simples de entender e complexo de executar: incorporar colônias da bactéria Bacillus pseudofirmus ao concreto. Quando a água penetra em uma fissura, as bactérias ativam e produzem cristais de calcário, que fecham a rachadura antes que ela avance.

A bactéria é capaz de sobreviver por mais de 200 anos dentro da estrutura. A primeira aplicação em escala real foi uma estação de salva-vidas na Holanda, em 2011. O material ainda está em fase de transição entre laboratório e mercado, mas aplicações comerciais iniciais já existem.

O argumento financeiro é o que abre portas nesse caso. O bioconcreto custa em média 40% mais que o concreto convencional. Pode parecer desvantagem, mas estudos de ciclo de vida mostram que, em ambientes marinhos, uma laje de concreto armado convencional com fissuras tem vida útil de cerca de 7 anos, enquanto a mesma laje em bioconcreto dura entre 60 e 94 anos, com benefícios ambientais adicionais de 56% e 75% em múltiplos indicadores de impacto.

A matemática muda completamente quando o cálculo inclui custo de manutenção ao longo da vida útil da estrutura.

Esse é um argumento que funciona em obras de infraestrutura, construções em zonas costeiras, hospitais e qualquer edifício onde a interrupção para manutenção estrutural tem custo operacional alto.

O que conecta os dois

Madeira engenheirada e concreto autocurativo parecem muito diferentes. São origens distintas, lógicas de projeto e estágios de adoção diferentes no Brasil.

Mas atacam o mesmo ponto fraco do modelo linear: a demanda contínua por material novo.

Um reduz a quantidade de material virgem necessária na estrutura, ao usar origem renovável e rastreável, enquanto o outro estende a vida da estrutura existente, reduzindo a frequência com que ela precisa ser refeita.

O mercado de materiais de economia circular aplicados à construção nos EUA superou USD 9,1 bilhões em 2024 e deve crescer 11,7% ao ano até 2034. Parte relevante desse crescimento está sendo puxada por metas ESG de incorporadoras e construtoras que precisam documentar a pegada de carbono dos seus projetos.

No Brasil, esse processo está no início, mas a lógica que impulsiona o mercado global é a mesma que chega aqui: quem especifica material precisa, cada vez mais, provar o que o material faz ao longo do tempo, não só na inauguração.

Vídeo da Semana

O problema da sustentabilidade no Brasil não é de consciência. É de estrutura

71% das empresas brasileiras dizem adotar práticas sustentáveis, porém, só 20% publicam dados verificáveis. Isso não condiz com uma “má fé” das empresas, na verdade, a própria infraestrutura não sustenta o que o discurso promete.

  • Embalagem reciclável que vai parar o lixão porque a coleta seletiva não existe.

  • Energia limpa contratada que não chega porque a rede de transmissão não aguenta.

  • Frota com rota otimizada que perde toda a eficiência numa rodovia interditada.

A meta não é o problema, mas sim o sistema que deveria executá-la.

Copiar o modelo europeu de sustentabilidade num país sem a infraestrutura que esse modelo exige se torna um risco operacional.

Quer se aprofundar no tema?

Assista ao vídeo completo no YouTube e entenda por que grande parte das estratégias de sustentabilidade quebra antes de sair do papel e o que as empresas podem controlar mesmo dentro desse cenário.

Reply

Avatar

or to participate

Continue lendo