Notícia
Existe um argumento que surge em quase toda conversa sobre sustentabilidade na construção.
“Sustentável custa mais.”
Ele fecha reuniões antes que qualquer dado seja apresentado. Aparece em briefings de projeto, em apresentações de produto, em decisões de incorporadora. E, na maioria das vezes, não é acompanhado de nenhuma conta.
Um relatório publicado pela consultoria holandesa Shifting Paradigms, com financiamento da European Climate Foundation, foi atrás dessa conta.
Redução de emissões e corte de custo no mesmo movimento
O estudo analisou 72 projetos reais, entre edifícios residenciais, comerciais e infraestrutura, construídos principalmente entre 2017 e 2022 na União Europeia e no Reino Unido. A pergunta que surgiu foi: reduzir carbono embutido aumenta o custo de obra?
Nos projetos que utilizaram otimização de projeto como estratégia principal, os números foram:
41% de redução média no carbono embutido, e 9% de corte no custo de construção. Comparados ao cenário convencional, sem tecnologias experimentais.
Essas não foram obras de nicho, mas projetos com tecnologias disponíveis no mercado da época.
Por que isso acontece
O mecanismo é direto
Quando o carbono embutido entra como critério de projeto desde o início, a equipe passa a avaliar combinações de materiais e sistemas estruturais que normalmente ficam fora da análise convencional.
Uma estrutura de concreto pós-tensionado pode substituir uma laje convencional e reduzir o volume de material e as emissões associadas à sua produção ao mesmo tempo.
Uma especificação de aço com menor intensidade de carbono, feita no detalhamento estrutural, pode reduzir o volume total especificado sem aumento de custo. O mesmo raciocínio vale para painéis de vedação, sistemas de fundação e uso de agregados reciclados em concreto.
O ganho vem de uma melhor utilização dos materiais, além da própria quantidade reduzida.
A janela que fecha cedo
Esses ganhos têm uma condição: a decisão precisa acontecer na fase de projeto.
Depois que a estrutura está definida e os materiais especificados, a alavancagem desaparece. O relatório é explícito: o maior potencial de redução de carbono embutido está nas fases de planejamento e concepção, não na execução, não na seleção de fornecedor no canteiro, não na gestão de resíduos depois da obra pronta.
Entrar tarde nessa discussão pode significar abrir mão de uma margem que existia e não vai voltar.
Outros estudos chegaram ao mesmo resultado
O resultado da Shifting Paradigms não é único.
Uma pesquisa do Rocky Mountain Institute com a Skanska, publicada em 2021 a partir de projetos nos EUA, mostrou que reduções de 19% a 46% no carbono embutido são alcançáveis com aumento de custo inferior a 1%, usando soluções já disponíveis.
Um estudo australiano publicado no periódico Building and Environment registrou que a adoção de uma estrutura de concreto pós-tensionado reduziu o carbono embutido em 8% e gerou economia de capital de 10%.
“O gerenciamento do carbono embutido pode ser visto como um proxy para gestão de custos.”
O que vale para o Brasil
Os dados do relatório refletem o contexto europeu e britânico, com preços de materiais e energia daquele período. Os valores absolutos não se transferem diretamente ao mercado brasileiro.
A lógica, sim.
A relação entre carbono embutido e custo de construção não é de conflito, mas de alinhamento desde que as decisões aconteçam no momento certo.
No Brasil, o tema ainda está na fase de conscientização. A Taxonomia Sustentável Brasileira, publicada pelo Decreto 13.705/2025, começa a criar o vocabulário regulatório para avaliações de ciclo de vida em edifícios.
O GRESB, principal benchmark de sustentabilidade do mercado imobiliário global, passou a pontuar carbono embutido em portfólios de desenvolvimento a partir deste ano.
Incorporadoras com investidores institucionais ou acesso a linhas de financiamento verde já estão sendo perguntadas sobre isso.
O que isso significa
O argumento de que sustentável custa mais não desapareceu. Mas os dados da última década mostram onde ele não se sustenta: quando o critério de carbono entra no projeto desde o início, ele compete em paridade com os critérios de custo, não contra eles.
A pergunta operacional, para quem projeta, constrói ou especifica, já não é se carbono embutido vai virar exigência. No mercado europeu já é. No Brasil, o movimento regulatório e financeiro aponta na mesma direção.
A pergunta é outra: em que fase do projeto essa discussão está acontecendo?
Se a resposta for “quando o cliente pedir”, o dado de 9% de redução de custo não vai estar mais disponível. Ele pertence à fase de concepção, após isso, o que sobra é conformidade.
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Conteúdo técnico
Biofilia não é só colocar algumas plantas no projeto

Imagem: divulgação
É ótimo quando o projeto chega cheio de referências; paredes verdes, jardins internos, madeira aparente em todo o teto. O cliente mostrou a pasta de imagens e disse que queria “aquele clima de natureza”.
Porém, ninguém perguntou quanto sol ia entrar ou se a temperatura do ambiente em janeiro foi simulada, muito menos calculou a carga de manutenção de uma parede viva sem sistema de irrigação projetado junto à estrutura.
Resultando em algo previsível: um espaço que apenas parece conectado à natureza, mas, na prática, esquenta, cansa e custa caro para manter.
A ciência
O conceito de biofilia tem fundamento científico sólido; o termo foi cunhado pelo psicanalista Erich Fromm em 1964. Em 1984, o biólogo Edward O. Wilson publicou o livro Biophilia e tornou o conceito central no campo da arquitetura e do comportamento humano. Wilson argumentou que os seres humanos possuem uma tendência inata de buscar conexão com outros sistemas vivos, com base em processos evolutivos.
Quando aplicada ao projeto com critério técnico, essa conexão tem efeitos mensuráveis. Estudos publicados em periódicos como Journal of Environmental Psychology e Environment and Behavior mostram redução de cortisol, melhora na concentração e maior desempenho cognitivo em ambientes com luz natural e vegetação.
Em 1984, o pesquisador Roger Ulrich publicou um estudo seminal na revista Science: pacientes cirúrgicos com vista para árvores usaram menos analgésicos e tiveram internação mais curta do que pacientes com vista para uma parede de tijolos.
Biofilia se tornou uma estética, e sem desempenho é apenas custo de obra para uma foto bonita
Onde o projeto falha
Uma parede de plantas sem sistema de irrigação projetado vai exigir manutenção cara, vai morrer por partes e vai ser removida em poucos anos.
Uma entrada de luz natural sem estudo de orientação solar vai criar ofuscamento pela manhã e sobreaquecimento à tarde.
Madeira aparente sem especificação de origem e tratamento vai trabalhar com a umidade e criar problemas acústicos que ninguém previu.
Cada uma dessas decisões tem consequência operacional … e nenhuma é detalhe.
Como deveria funcionar
Biofilia aplicada com critério técnico começa antes do projeto. Inicia na leitura do lugar, na orientação da edificação e no entendimento do microclima local.
Luz natural não é janela grande, é janela no lugar certo, com proteção solar dimensionada para a latitude e para o horário de uso do ambiente.
Ventilação cruzada não é duas janelas em lados opostos, é entender a direção dos ventos e criar o caminho que o ar vai percorrer dentro do espaço.
Vegetação não é decoração, é decisão sobre espécie, porte, localização e sistema de suporte. Significa calcular onde vai haver sombra, onde vai haver umidade e onde o usuário vai interagir com o verde de forma real.
Quando essas decisões são tomadas com método, o espaço não só parece natural, mas também funciona como se fosse natural, e a diferença entre os dois é grande.
O argumento que não sustenta
O mercado de alto padrão aprendeu a usar biofilia como argumento de venda. “Projeto biofílico” virou item de portfólio.
O problema é que poucos conseguem explicar o que isso significa além da imagem.
O cliente paga pela experiência que o espaço entrega, só que, um projeto que não garante conforto térmico, possui manutenção cara e perde a vegetação em dois anos é lembrado e destacado pelos seus problemas, não por sua estética.
O que muda quando a biofilia é decisão técnica: o projeto fica mais eficiente, mais confortável e mais barato para operar. A foto pode parecer igual, mas o que o usuário sente dentro do espaço, não.
Vídeo da Semana
Do que adianta construir rápido, se o prédio fica todo errado?!
O prédio foi entregue semana passada. Tudo ocorreu bem, projeto aprovado rápido, fachada de vidro, renderização impecável. Por fora, tudo certo.
Mas por dentro: persianas fechadas às 10h da manhã, ar-condicionado no limite e equipe trabalhando no escuro porque o sol atravessa o vidro direto para as telas.
A conta de energia veio cara … como sempre vem.
Embora o ar-condicionado pareça o problema, o que causa este fenômeno é a forma como o prédio foi concebido, um erro que não possui conserto após a obra: não foi analisado o clima antes de fechar o projeto, e isso é bem mais comum do que parece.
Se interessou pelo tema?
Assista ao vídeo completo no YouTube e entenda como a análise climática muda o resultado do projeto antes mesmo da obra começar!


