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Índia se torna o maior exportador de arroz do mundo. Como a privatização da Sabesp impacta SP
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Exportação recorde de arroz na Índia acelera a superexploração de aquíferos no norte do país.

Foto: Reuters
A Índia consolidou-se, no ciclo fiscal de 2024-25, como a âncora do mercado global de arroz. As exportações ultrapassaram 20 milhões de toneladas métricas (MMT) e geraram US$ 12,95 bilhões, mesmo com choques tarifários e instabilidades geopolíticas nas rotas do Mar Vermelho. Por trás desses números, o relatório aponta uma crise ecológica estrutural: a exportação maciça de arroz equivale à exportação de água subterrânea, com pressão crescente sobre os aquíferos nos estados de Punjab e Haryana.
O documento descreve o modelo atual como uma “bolha hídrica”, sustentada pela arbitragem ambiental: o custo da água não entra no preço final do grão. A liderança comercial é mantida por uma estrutura de custos que, segundo a análise, opera de forma dissociada da tendência de exaustão hidrológica no norte da Índia.
Retomada e volume recorde
Após um período de volatilidade e restrições em 2023, motivadas por preocupações com a inflação doméstica e o fenômeno El Niño, a Índia recalibrou sua política comercial no ciclo 2024-25. O levantamento das restrições sobre o arroz não-basmati e a eliminação de Preços Mínimos de Exportação (MEP) impulsionaram a recuperação dos embarques.
O relatório indica que a Índia respondeu por mais de 40% do comércio mundial e exportou para mais de 170 países, reafirmando sua posição central no mercado.
Dessa forma, a fotografia deste ciclo pode ser resumida da seguinte maneira:
Total: 20,1 MMT | US$ 12,95 bilhões | +6,2%
Bastami: 6,06 MMT | US$ 5,87 bilhões | +14% em valor
Não bastami: 14,04 MMT | US$ 7,08 bilhões | +3,5% em volume
Dependência assimétrica
A análise descreve uma dependência global concentrada, em que a segurança alimentar de regiões fica atrelada à estabilidade política e climática de poucos estados indianos.
No Oriente Médio, a Índia detém 58% do mercado regional. Países como a Arábia Saudita e o Irã dependem fortemente do basmati indiano, descrito como um componente relevante do vínculo diplomático e comercial.
Já em relação à África Ocidental, o relatório aponta uma vulnerabilidade. A Índia controla 41% do mercado regional. O caso de Benin (País na África Ocidental) é usado para explicar a engrenagem logística. Em 2024, o país importou US$ 853 milhões em arroz, com o porto de Cotonou operando como entreposto para reexportação informal para a Nigéria, que mantém políticas protecionistas rígidas.
A queda do não-basmati e o “dumping” ecológico
A Índia manteve competitividade com preços fortes no basmati e correção agressiva no não-basmati. O relatório registra:
Basmati (variedade 1121): US$ 1.050-1.120/tonelada (FOB)
Não-basmati (5% quebrado): de US$ 560 (abr/2024) para US$ 505 (jun/2025), após remoção do MEP
Esse recuo foi descrito como decisivo para reconquistar o mercado na África diante de Tailândia e Vietnã. Ao mesmo tempo, o texto sustenta que o preço baixo não reflete o custo real do recurso hídrico, configurando “dumping ecológico”: a água subterrânea é consumida sem ser precificada no grão exportado.
Os estados indianos sofrem com a crise hidrológica
O núcleo do documento é hidrogeológico. Os estados de Punjab e Haryana, celebrados como o “celeiro da Índia” desde a Revolução Verde (1960), operam sob déficit hídrico estrutural. A produção de 1 kg de arroz nessas regiões consome entre 3.000 e 5.000 litros de água.
Os indicadores reunidos apontam superexploração:
Punjab: taxa média de extração de 156% da carga anual;
Blocos superexplorados: Punjab 72,55% (111 de 153), Haryana 63,64%;
Aprofundamento do lençol: de 30 pés (~9 m) para 80-200 pés (24-60 m) em 2025;
Projeção (camada superior): risco de esgotamento em Punjab até 2029.
O relatório também destaca a dimensão humana: relatos de agricultores gastando entre 30.000 e 40.000 rúpias em uma temporada para aprofundar poços e instalar tubulações mais longas. Em Haryana, a necessidade de bombas submersíveis de maior potência aparece como fator de pressão sobre margens e aumento de endividamento.
A “água virtual” vai embora junto do arroz
O conceito de “água virtual” organiza o custo ambiental do comércio. O relatório estima que exportar 20,1 MMT de arroz implica exportar virtualmente cerca de 40 a 50 bilhões de m³ de água.
Também é citado que, em 2023-24, a exportação de água virtual via arroz (40,87 BCM) representou quase 17% da extração anual de águas subterrâneas da Índia e quase 20% do uso agrícola total. A leitura sustentada é que a liderança comercial se apoia em reservas finitas, com perda acelerada de capital natural.
MSP, energia subsidiada e o travamento da mudança
A persistência do arroz em regiões de escassez não é tratada como “erro ecológico”, mas sim como um produto de incentivos. O relatório descreve o MSP (Minimum Support Price) e a aquisição garantida como uma estrutura que pode transformar o arroz e o trigo em culturas de menor risco. O preço garantido do arroz teria subido cerca de 70% na última década.
O subsídio energético fecha o circuito: eletricidade gratuita ou quase gratuita para irrigação, dessa forma, removendo qualquer sinal de custo para o uso da água, apesar do custo social da exaustão do aquífero.
Quando se fala em diversificação, o texto registra o colapso das alternativas no campo. Em Punjab, a área de algodão teria despencado de quase 600.000 hectares para cerca de 100.000 hectares em 2024-25, associada à lagarta-rosada (praga) e à perda de eficácia do BT Cotton, com demora na aprovação de novas tecnologias. No plano político, a resistência é descrita como estrutural: protestos recorrentes e a baixa adesão a incentivos temporários para troca do arroz por milhetos (como INR 17.500/ha em Haryana), por não resolver o risco de mercado no longo prazo.
Exportação de volatilidade resultando em impacto global
O relatório descreve ciclos rápidos de escassez e excesso que desestabilizam economias dependentes: na África Ocidental, o “efeito chicote” aparece com clareza: restrições em 2023 elevaram preços e geraram pânico; a reabertura em 2024-25 trouxe arroz barato, com pressão sobre produtores locais.
O Senegal é apresentado como caso de reversão no fim de 2025: estoques para seis meses (o dobro do normal), cerca de 195.000 toneladas de arroz paddy local encalhadas e suspensão temporária de importações em novembro de 2025. O episódio inclui desvio de navios e queda do preço do arroz quebrado indiano para US$ 298/MT, afetando exportadores.
Soluções e intervenções: tecnologia, escala e limites
A principal alternativa técnica destacada é o Direct Seeded Rice (DSR). O relatório aponta que a economia tem potencial de 20% a 40% de água e redução de mão de obra, com subsídio de INR 1.500/acre em Punjab e verificação por satélites (SAR). As barreiras também são diretas: manejo de ervas daninhas mais complexo e risco de falha se as chuvas iniciais forem irregulares.
No setor corporativo, são citadas iniciativas com PepsiCo e Olam Agri, em parceria a Alliance of Biodiversity International, além do trabalho da PepsiCo com mais de 27.000 agricultores na Índia. O relatório, porém, enfatiza limitações de escala frente ao número total de produtores e dependência de incentivos fora do desenho estrutural de subsídios.
Conclusão
O relatório sustenta que a liderança indiana no comércio global de arroz em 204-2025 se apoia em condições que elevam o risco no médio prazo. Os recordes de exportação coexistem com superexploração de aquíferos em Punjab e Haryana, aprofundamento do lençol freático e aumento do custo de extração, com impacto direto na renda e na permanência do pequeno produtor.
No plano externo, a dependência de importadores (especialmente na África Ocidental) amplia a transmissão de instabilidade: decisões domésticas indianas geram ciclos de escassez e excesso, afetando preços e políticas locais, como ilustrado pela suspensão temporária de importações no Senegal em novembro de 2025 após acúmulo de estoques e encalhe de produção doméstica.
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